O Impressionante Exorcismo de Casagrande

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Vila Leopoldina, zona oeste de São Paulo, setembro de 2007. Em um apartamento o DVD do The Doors está no talo, e o lendário Jim Morrison canta fortemente os impactantes versos: “This Is The End, my only friend, the end. Of our elaborate plans, the end. Of everything that stands, the end.” (Este é o fim, meu único amigo, o fim. De nossos planos elaborados, o fim. De tudo que está de pé, o fim.).

As carreiras de cocaína cheiradas, da heroína injetada e da meia garrafa de tequila enxugada começam a fazer um efeito violentamente corrosivo no corpo de um famoso ex-jogador de futebol, craque da camisa nove, que começa a ser atormentado por visões demoníacas, assim como uma figura estranha de uma mulher refletida na porta de sua geladeira, a qual ele acredita ser uma alma penada que habitara seu apartamento anos atrás.

Tal cena poderia ter sido retirada de um intenso filme de drama, daqueles de suar as mãos, mas é apenas o impactante relato inicial da sensacional biografia de Walter Casagrande Júnior, ou Casagrande, em Casagrande e Seus Demônios.

Lançado em abril de 2013 pela editora Globo, e escrito em parceria com o jornalista Gilvan Ribeiro, o livro surpreende ao mostrar um retrato tão sincero e revelador de uma das figuras mais populares do futebol.

Indo ao contrário do tradicional (nascimento, ralação pra chegar ao sucesso, fama, auge, decadência, retorno triunfal), aqui todo o drama vivido por Casagrande é exposto logo de cara, e a descrição das imagens e situações delicadas do ídolo criam um laço de empatia instantâneo.

Nada aqui escapa: overdoses, brigas, crises, acidente, rompimentos, e a difícil batalha para se livrar do vício.

Passada toda a parte densa, o livro em sua metade começa a relatar a trajetória do ex-jogador na ordem cronológica: o começo nas categorias de base do Corinthians, seu empréstimo para a Caldense aos 17 anos, onde se destacou ao ser o vice-artilheiro do Mineiro de 81, o começo fenomenal no time do Parque São Jorge, a parceria inesquecível com o Doutor, seu importante papel na “Democracia Corinthiana”, sua bem sucedida passagem pela Europa (com uma surpreendente revelação do uso imposto de doping, por um tradicional time português), assim como as rusgas com Telê Santana durante a Copa de 86.

Mas nem só de futebol viveu o grande Casão; a paixão mais do que conhecida pelo rock n’ roll, assim como a amizade com importantes ícones nacionais do gênero como Rita Lee, Luiz Carlini, Lobão, os Titãs, Kiko Zambianchi, e sua devoção pelo Doors, AC/DC, Black Sabbath, Jimi Hendrix, Janis Joplin e Clapton, também ganham destaque, com um curioso caso de quando ele tentou ajudar seu grande ídolo, e mito do rock tupiniquim, Raul Seixas, num mal organizado show em Marília.

As traquinagens com sua turma de amigos, em especial o Magrão, o ex- lateral direito Paulo Roberto, e festinhas inusitadas (Inferno na Torre), também garantem uma boa diversão à leitura.

O texto da dupla escritora é como escreveu o jornalista Juca Kfouri, “um tabelinha digna de Casagrande e Sócrates”, daquela tão envolvente que fará com que o tempo voe e número de páginas devoradas surpreenda o leitor.

E acima de tudo: a obra se revela como um retrato honesto, inteligente, e que em momento algum transparece um discurso pedante e moralista, de um tema tão delicado como o vício em drogas.

Uma biografia essencial para ler e ter na estante!

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