A memória que quero preservar na última lágrima na chuva

Recentemente meu grande amigo e mestre Moacir propôs um interessante exercício de reflexão no Facebook, em analogia a clássica cena do monumental Blade Runner-O Caçador de Andróides: “Se você pudesse preservar uma última memória que se perderia como lágrimas na chuva, qual seria?” 

Tal questionamento gera inúmeras possibilidades de respostas, de tempos distintos da vida, mas hoje posso afirmar com convicção a que gostaria de preservar: 21 de outubro de 2017, o dia em que presenciei no Morumbi o mega concerto do penúltimo show do U2 na turnê “The Joshua Tree 30 Years”. 

O conceito do disco de 87, a forma como ele foi feito, sua estética, as atmosferas sonoras, os clipes, e a memorável turnê que renderia o excelente álbum (duplo no vinil)/filme “Rattle And Hum” no ano seguinte, já merecem por si só um trabalhado de preservação para todo o sempre. 

Mas o mais incrível é perceber como Bono estava certo quando declarou o motivo desta turnê de celebração: passadas três décadas, o antológico trabalho faz mais sentido do que nunca e sua mensagem se mostra necessária, num mundo cuja sociedade anda se relacionando de maneira cada vez mais artificialmente anêmica e polarizada. 

Como tudo que é bom na vida, viver esse momento teve lá seus perrengues corriqueiros de um grande evento: a fila estava uma verdadeira bagunça, onde para achar o lugar certo de entrar nela era necessária uma volta olímpica no Cícero Pompeu de Toledo, mesmo o clima estando nublado com temperatura de 26 graus, a sensação térmica na pista próximo ao palco era de 56; isso fora ter de ouvir pérolas, como o casal apaixonado que no auge da expectativa de ver os ídolos de perto, a esposa vira pro marido e dispara: “Meu bem, estou doida para ouvir aquela música linda deles que eu adoro: WISH YOU WHERE HERE!!!!!” … é, segue o jogo! 

Para diminuir a espera para o grande momento, o show de abertura fica por conta de Noel Gallagher’s High Flying Birds. Para os saudosos fãs órfãos do Oasis, uma forma de matar as saudades, mas para este que vos escreve, uma penitência! 

Nunca fui fã e as canções do icônico grupo do movimento do britpop em nada me emocionam, e por mais que saiba da relevância do trabalho deles, para mim é tudo muito pretenciosamente inócuo. 

Mas justiça seja feita; o som do show estava bom de ouvir, a banda tava afim de dar o seu melhor no palco, e quando Noel mandou os hits “Champagne Supernova”, “Wonderwall” e “Don’t Look Back Anger”, foi bacana ver várias pessoas cantando elas. 

Após 50 minutos de apresentação , abertura finalizada, e começa os preparativos finais para a grande celebração ao quinto álbum de estúdio do quarteto irlandês. 

Últimos preparativos para o momento tão aguardado.

Com um atraso de 20 minutos do horário previsto para o show, surge no palco aquele que colocou o anúncio na escola que viria a mudar a história do rock: Larry Mullen Jr! 

O baterista caminha por uma passarela em frente ao palco e vai até a beira dela, onde está montada a bateria usada nas quatro primeiras músicas do set list; quando ele termina de saudar os fãs do lado onde estou, senta na cadeira, coloca os fones de retorno no ouvido e já desce o braço sem dó na introdução explosiva do hino catártico “Sunday Bloody Sunday”, depois é a vez do mago Merlin das seis cordas The Edge entrar no palco tocando o riff, e logo vem também Adam Clayton empunhando seu baixo com classe; e por fim chega Bono, já mandando os tradicionais “Ôooooo” e cantando os versos iniciais de maneira única! 

Bateria usada por Larry Mullen Jr. nas quatro primeiras músicas do set list.

A performance remete aos tempos de glória e maturação de “Under A Blood Red Sky”, e ter sido um dos punhos cerrados que compuseram o cenário de exaltação aos icônicos “No more, no more”, já fez tudo valer a pena. 

Mas nem dá tempo de respirar direito e mr. Adam Clayton já manda uma das linhas de baixo mais cool de todo o sistema solar; é chegado o momento de “New Years Day”, mais um clássico do incrível “War”! 

E haja gogó e pernas para acompanhar tamanha animação que toma conta do Morumbi. 

Depois dos dois petardos, vem um dos já tradicionais discursos políticos de Bono, desta vez, porém, mais conciso. O vocalista diz que nosso país um dia terá governantes dignos de seu povo, que sabe da nossa paixão pelo futebol, como estamos na torcida pelo hexa, e de como isso ajuda a amenizar um pouco as coisas, mas que naquela noite a música seria a nossa redenção, e para coroar esse momento, uma das mais belas composições da banda e jóia do “The Unforgettable Fire”: Bad! 

E os caras tão afim é de ir com tudo e fazer uma abertura perfeita, e o grande hino do disco de 84, em tributo à Martin Luther King, vem a tona: Pride, cantada por 200 em cada 10 presentes do show. 

Com a abertura lembrando dos caminhos sonoros que culminaram no “The Joshua Tree”, é chegada hora de começar sua celebração e tocá-lo na íntegra! 

E é impossível não se arrepiar e ficar em êxtase com uma das cenas mais memoráveis do filme concerto de 88 ganhando vida: o gigantesco telão finalmente é ativado, com um imenso fundo vermelho, e com a árvore símbolo do disco toda preta; os quatro membros saem do mini palco do fim da passarela, e se dirigem ao palco principal, sendo possível ver somente suas silhuetas, ao som da magnífica abertura de “Where The Streets Have No Name”. 

Um grande clarão surge, e a árvore dá lugar a uma imensa paisagem de uma estrada no meio do deserto, enquanto o mega hit começa a ser executado.

Where The Streets Have No Name.

Ali o terreno já estava todo dominado pelo U2, e sabendo disso, eles só aumentam o nível da performance… 

Se realizar o sonho de ver ao vivo e a poucos metros de distância a banda da sua vida já é uma grande realização, o que dizer dela tocar sua música favorita com um emocionado coral de 80 mil vozes? Minha predileção por “I Still Haven’t Found What I Looking For”, agora virou um caso de amor eterno! 

A icônica balada, uma das mais belas dos saudosos anos 80, “With Or Without You”, é a prova viva de como é possível fazer uma canção forte de amor para embalar casais do Brasil ao Japão, sem soar piegas e com muito feeling e qualidade. 

Bullet The Blue Sky.

Passado o momento “o amor está no ar”, uma paulada magistral que rendeu até tributo do Sepultura: “Bullet The Blue Sky”! 

Só de ouvir o solo handrixiano de The Edge, a batera militar raivosa de Larry, o baixo pulsante de Adam, e Bono fazendo uma grande entrega na sua interpretação vocal, já valeria pagar o ingresso novamente. 

Running To Stand Still.

O lado B já começa a apontar no caminho, e na belíssima e densa balada “Running To Stand Still”, Edge vai para o piano e Bono mostra toda sua habilidade na gaita. 

Na sequência vem aquela que para este mero fã que vos escreve, entra facilmente na categoria “grandes canções que mereciam virar hits”: “Red Hill Mining Town”, que encerra de maneira competente o lado A. 

In God’s Country.

“In God’s Country” abre bem o lado mais alternativo do disco, com seu excelente riff  de guitarra e um ritmo mais direto ao ponto. 

E a banda mostra toda sua devoção e qualidade para mandar ver num blues, com “Trip Through Your Wires”, que tem uma gaita e um refrão irresistíveis. 

One Tree Hill.

Outra canção que merecia ter tido um reconhecimento maior era a sensacional “One Tree Hill”, pois todos os elementos típicos de sacar numa primeira audição (timbre da guitarra, versos, melodia) de aquilo é exclusivo do U2, estão todos ali. 

Todo disco tem seu momento de derrapada, e com a obra-prima de 87 não seria diferente. Por mais que curta o clima soturno e denso de “Exit”, ela nunca foi uma faixa de alta rotação. Mas… foi a grata surpresa do show! 

Com um vídeo introdutório de crítica sarcástica à Donald Trump, a canção ganha uma vida extra no palco, e tornasse um dos momentos mais sensacionais de toda aquela experiência. 

Mothers Of Disappeared.

E para fechar com chave de ouro o bloco “The Joshua Tree”, a belíssima “Mothers Of Diseappeared”, cuja letra que remete as mães chilenas e argentinas que perderam os maridos e filhos na ditadura, se mostra necessária e mais do que digna de jamais sair do set list das próximas turnês. 

Fim do bloco The Joshua Tree.

Pequena pausa para o primeiro bis, que já começa a 300 km/h: “Beautiful Day”. O mega hit que pavimentou o caminho de entrada do grupo irlandês mais ilustre do mundo no novo milênio , é incrivelmente o resultado mais próximo e fiel do que se tem registrado num disco, ou seja, performance de cair o queixo! 

Beautiful Day.

Na cola dela mais um tiro de bazuca do “All That You  Can’t Leave Behind”: “Elevation”!  

E pensa que o momento de pular mais que aluno empolgado no primeiro mês de academia acabou? Que nada, pra fechar com tudo o primeiro bis, “Vertigo”, que sem sombra de dúvidas nenhuma, foi o momento mais animado de todo o show (quando estava saindo do estádio, uma quantidade expressiva de pessoas ainda estavam cantando a melodia do petardo). 

Vertigo.

Muitos fãs puritanos chiaram com a opção da banda de encerrar o mega show com um bis mais suave, ao invés de um mais energético. 

Porém, tal opção só reforça a característica ousada de sempre nadar contra a maré que tanto contribuiu para o estrelado e firmamento do U2. 

A nova música de trabalho, “You’re The Best Thing About Me”, mostra que “Songs Of Experience” tem bastante potencial radiofônico e de muito sucesso se bem trabalhado. 

E o final não poderia ser menos do que emocionante, com duas grandes baladas do marco revolucionário de 91: “Ultraviolet” homenageia as esposas de cada integrante do grupo, assim como mulheres que lutaram por um mundo mais justo, cujas imagens são mostradas no telão.  

Pintora paulistana foi uma das grandes figuras femininas a ganhar uma homenagem em “Ultraviolet”.

Por último, uma das baladas mais lindas do universo: “One”. Ah se a humanidade soubesse botar em prática ao menos 5% do que ela transmite (ok, não vou começar a divagar). 

Fim de show.

Após a já tradicional homenagem ao país por meio da bandeira nacional, reproduzia da em tamanho gigantesco no telão, fica a mostra de como um show deve ser feito: músicas de primeira com uma estrutura que a complemente, numa fusão que a torna uma arte especialmente única! 

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