O Ícone De Uma Geração

Segundo disco do Nirvana, com capa histórica de Kirk Weddle, tornou-se um símbolo dos anos 90.

Segundo disco do Nirvana, com capa histórica de Kirk Weddle, tornou-se um símbolo dos anos 90.

Se a música dos anos 90 tivesse um RG, certamente sua naturalidade seria a cidade de Los Angeles, mais precisamente o Sound City Studios, com o nascimento ocorrendo no dia 24/9/1991, sua foto traria um bebê com o pinto de fora numa piscina atrás de uma nota de 1 dólar presa a um anzol, seus pais seriam Butch Vig, Dave Grohl, Krist Novoselic, Kurt Cobain e seu nome seria Nevermind.

Passados 25 anos de seu lançamento, o legado e a influência do segundo disco do Nirvana continuam numa impressionante crescente até hoje, assim como sua qualidade sonora.

Apesar de o lançamento ter ocorrido em 91, os trabalhos de Nevermind começaram de fato um ano antes, quando a banda pela quarta vez estava sem baterista e Buzz Osborne apresentou Dave Grohl para o vocalista e guitarrista Kurt Cobain e o baixista Krist Novoselic. Depois de uma viagem para Seattle e um teste, Grohl assumiu as baquetas em definitivo e se juntou aos dois para começar as gravações do segundo disco.

A formação que gravou o clássico: Krist Novoselic (baixo), Kurt Cobain (vocal e guitarra) e Dave Grohl (bateria).

A formação que gravou o clássico: Krist Novoselic (baixo), Kurt Cobain (vocal e guitarra) e Dave Grohl (bateria).

Com um aporte de US$ 125 mil e após realizarem algumas demos, o trio juntamente com o produtor Bucth Vig se mudaram para Los Angeles, onde trabalhariam no lendário Sound City Studios.

O esforço para que o disco tivesse um som que o deixasse único foi intenso: quando a banda não conseguia acertar a mão em uma canção pela terceira vez, já pulava direto para outra faixa, e Vig extraía ao máximo o potencial do vocal de Cobain, dos backing vocals e da bateria de Grohl e do baixo de Novoselic.

A icônica capa também foi trabalhosa. Elaborada pelo vocalista, que queria colocar um bebê nu em uma piscina (depois de ver um documentário sobre partos realizados em piscinas) indo atrás de uma nota de 1 dólar presa a um anzol, pediu para que o fotógrafo Kirk Weddle colocasse a ideia na prática.  Depois das primeiras tentativas de fazê-la e recebendo cobranças de até US$ 7.500 para que pudesse fotografar o rebento, Weddle conseguiu o filho de um amigo para posar, o então pequenino de cinco meses Spencer Elder.

Capa do single de "Smells Like Teen Spirit".

Capa do single de “Smells Like Teen Spirit”.

Toda essa labuta surtiu efeito, e logo de cara já se podia notar o resultado: “Smells Like Teen Spirit”. Verdadeiro hino da geração X, a canção começa com um riff simples e poderoso de Kurt e explode com a bateria de Dave, e a linha de baixo pulsante de Krist não fica pra trás. A letra de Cobain era uma crítica de como os adolescentes da época eram sedentos por preencherem um vazio que sentiam em suas vidas, e de como qualquer mero entretenimento era um alívio imediato.

A música ganhou ainda mais força com seu extraordinário videoclipe, cuja fotografia toda esfumaça, com tons laranja e amarelo, efeitos de slow motion e o caos juvenil generalizado na quadra esportiva do colégio, foi um sucesso estrondoso na MTV, a ponto de ser parte fixa da programação da emissora.

Capa do single de "In Bloom".

Capa do single de “In Bloom”.

Com uma melodia calcada na linha de baixo, e com um começo calmo que explode no refrão, “In Bloom” foi a primeira música a ser trabalhada para Nevermind. O trabalho de Butch Vig aqui foi essencial para a qualidade primorosa da faixa: ele conseguiu aliar o vocal raivoso de Cobain ao harmonioso de fundo de Grohl, um som de bateria pesado e um baixo pulsante.

Mais uma vez um clipe memorável foi feito, desta vez satirizando os programas de auditório da TV norte-americana dos anos 60, onde os membros do Nirvana aparecem comportadinhos no início, mas encerrando com o caos que era de praxe em seus shows.

Capa do single de "Come As You Are".

Capa do single de “Come As You Are”.

Estima-se que de cada 10 estudantes principiantes de violão, 385 começam aprendendo a tocar o instrumento com a clássica “Come As You Are” (até mesmo este humilde blogueiro sabe tocar as 4 primeiras notas da canção). Soando pesada e num tom emocional, a letra de Kurt retrata heróis e vilões, sendo um hino à memória e a essência das pessoas como elas são.

Segundo uma declaração do vocalista, “Dave Grohl era o baterista com a melhor noção de timing que ele já tinha visto na vida”, e tal comprovação pode ser feita em “Breed”. Com uma introdução fenomenal de bateria, uma guitarra constante e punk, a canção gruda na cabeça logo na primeira audição.

Capa do single de "Lithium".

Capa do single de “Lithium”.

Doenças, drogas, solidão, uma vida cristã pacata e suicídio dão a tônica da maravilhosamente explosiva “Lithium”; além do coquetel letal da letra, o instrumental da música chama a atenção por transitar do acústico até uma guitarra mais distorcida. E mais uma vez o vocal de Cobain consegue ir da calma a fúria com maestria.

E não é só no peso sonoro que o disco consegue chamar a atenção; até mesmo na acústica e “pop” “Polly”, o Nirvana consegue causar com uma narrativa envolvendo uma garota que é sequestrada e violentada sexualmente.

Confesso que detesto aquela introdução em “alto falante”, mas, a precisa estrutura punk crua remetendo a banda nos seus tempos de “Bleach” (89), conseguem manter a chama acessa de “Territorial Pissings”.

Na sequência, “Drain You” não deixa o peso do disco cair, chamando a atenção pelo seu improviso que chega ao clímax no retorno explosivo do vocal.

Tendo um refrão de baixo federal, “Lounge Act”, é um dos melhores lados B da carreira do Nirvana. Kurt canta na canção sobre a busca pela verdade mesmo em meio a tanta loucura.

Uma bateria em tom militar na introdução, acompanhada de um baixo pulsante, dão a tônica da excelente “Stay Away”, contando ainda com entradas pontuais de guitarra e vocais viscerais.

Felicidade só mesmo na aparência da interpretação vocal de Kurt, porque de alegre a letra de “On A Plain” não tem nada, muito pelo contrário; retrata a solidão e a falta de sentido na vida, sensação que é reforçada com os versos: “It is now time to make it unclear/ To write off lines that don’t make sense/ I love myself better than you/ I know it’s wrong, so what should I do?/ One more special message to go/ And then I’m done then I can go home/ I Love myself better than you/ I know it’s wrong, so what should I do?”.

Para fechar com chave de ouro, uma das melhores canções de encerramento de disco da história do sistema solar: “Something In The Way”. Com uma melodia mais difícil e trabalhada, de início ela foi gravada apenas na base da voz e violão, e somente depois foi inserido o belo e choroso violoncelo, o que deu um toque especial a canção que evoca a época em que Kurt saiu de casa e viveu nas ruas.

Nevermind tinha como previsão inicial de vendas pela Geffen Records a marca de 250 mil cópias. O álbum extrapolou essas metas e tornou-se um best-seller mundial, vendendo 30 milhões de cópias ao redor do planeta, sendo pouco mais de 10 somente nos EUA, além de conseguir o feito de tirar de “Dangerous” do rei do pop Michael Jackson sua quarta semana de liderança na parada da Billboard, feito que podia se equiparar a uma espécie de “golpe de estado musical” na época.

Seu estouro puxou na esteira do sucesso outras bandas brilhantes do movimento grunge, como o Pearl Jam (que um mês antes havia lançado seu clássico disco de estreia “Ten”), Alice In Chains, Soundgarden e Mudhoney.

Mesmo com Kurt Cobain não tendo gostado do resultado final da mixagem de Nevermind, o disco é um dos raros casos em que se transformou no ícone de uma geração, somado a um som perfeito e viciante de ser escutado de ponta a ponta.

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