Diário Pop

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Chega a ser curioso como um astro tímido e que ao longo dos anos ficou tão recluso, tenha lançado um álbum tão poderoso e confessional logo após de um dos períodos mais conturbados da sua vida.

Tendo uma (injusta) acusação de pedofilia pesando em suas costas, e um agitado casamento com a filha do rei do rock, Lisa Marrie Presley, o rei do pop Michael Jackson queria mostrar para o mundo quem é que ainda ditava as regras do jogo no reinado pop.

Lançado no dia 16 de junho de 1995, HIStory: Past, Present And Future Book I, é o nono álbum (quinto da fase adulta) do cantor, trazendo 30 canções dividas em dois cd’s.

O primeiro batizado de “HIStory Begins” é um compilado de 15 canções abrangendo da fase “Off The Wall” (1979) a “Dangerous” (1991), mostrando o porquê MJ possuía não só um passado glorioso, como também as razões que justificavam todas as honrarias musicais que havia recebido até aquele momento.

Já em “HIStory Continues”, finalmente após uma Copa do Mundo de espera, os fãs eram agraciados com 15 novas canções, que apontariam os novos caminhos a serem trilhados pelo cantor.

Capa do single de "Scream".

Capa do single de “Scream”.

A faixa de abertura, “Scream”, traz um dueto com sua irmã (e excelente cantora) Janet Jackson; aqui, Michael exorciza toda a raiva sentida por aqueles que injustamente o perseguem- especialmente após as acusações de 93- dizendo claramente que deveriam se importar com problemas mais sérios.

Misturando pop da melhor qualidade, com o peso do rock, a canção fez sucesso, e suas camadas sonoras chegaram a chamar a atenção inclusive do baterista do Metallica Lars Ulrich, que chegou a declarar para Rolling Stone: “Scream foi uma faixa que, quando saiu, tinha mais de um elemento de rock pesado. Essa faixa estava em outro patamar. O videoclipe que o diretor Mar Romanek fez, com Michael e Janet flutuando em uma espaço nave? Era de outro nível.”.

E para chegar nesse outro nível ressaltado por Lars, investimento e dedicação não faltaram na produção do icônico clipe em preto e branco: orçado em 7 milhões de dólares, e tendo sido filmado durante 9 dias no Universal Studios, é até hoje o mais caro da história.

Porém, todos os gastos valeram a pena: o videoclipe foi um mega sucesso na MTV, tendo ganhado 3 VMA’s, e faturou o Grammy de melhor clipe na cerimônia de 1996.

Capa do single de "They Don't Care About Us".

Capa do single de “They Don’t Care About Us”.

“Bata em mim, odeie-me, você nunca vai me quebrar. Procure-me, emocione-me, você nunca vai me matar”; esses poderosos e impactantes versos, já dão uma boa noção de todo o peso de “They Don’t Care About Us”.

Uma das canções mais politizadas da carreira de Jackson traz uma sonoridade pesada com uma excelente percussão e riffs bem pontuados de guitarra. Porém, pouco antes de seu lançamento, causou polêmica. Isso porque em um de seus versos, continha a palavra “jew’ (judeu), que em solo ianque assume o caráter de gíria (trapaça), e teve de ser reescrita.

Foi a única música do astro a ganhar duas versões de clipes, ambas dirigidas pelo consagrado cineasta Spike Lee.

A versão lançada nos Estados Unidos e na Europa mostra presos de uma penitenciária se rebelando contra suas condições precárias na prisão, e com o fato de serem tratados como lixo. Já a mais conhecida, e que rodou o restante do planeta, foi filmado em nosso solo nacional, e traz uma visão contrastante da alegria e calor receptivo do povo brasileiro, nas imagens do Pelourinho e na participação do Olodum em Salvador, e da pobreza e total descaso do governo (os que não ligam pra gente), na favela do morro Dona Marta no Rio de Janeiro.

Capa do single de "Stranger In Moscow".

Capa do single de “Stranger In Moscow”.

“Stranger In Moscow” traz um Michael Jackson triste e solitário, porém, ainda soando de maneira docemente fabulosa. Com efeitos de gotas de chuva, uma guitarra suave, e um vocal manso, é uma das baladas mais espetaculares do maior gênio que a música pop já teve.

E toda essa beleza é realçada ainda mais no antológico videoclipe lançado em 96, todo fotografado em preto e branco, com efeito bullet time (que ficaria popularizado em Matrix três anos depois), fazendo um curioso e sentimental contraste de vidas agitadas e calmas, enquanto Michael prossegue sua vida como um estranho na capital russa.

Capa do single promocional (enviado somente para as rádios) de "This Time Around".

Capa do single promocional (enviado somente para as rádios) de “This Time Around”.

Quarta faixa do tracklist, e quarto single de trabalho do disco nas rádios, o excelente rap de “This Time Around” não ganhou clipe e nem foi um estouro das FM’s, porém, conseguiu chamar a atenção de um grande nome da realeza pop: Prince. O genial guitarrista, compositor, produtor e cantor, chegou a declarar na época que esse era o melhor trabalho feito por seu colega.

Capa do single de "Earth Song".

Capa do single de “Earth Song”.

Dando continuidade na missão de transmitir importantes mensagens sociais, “Earth Song” é além de uma das melhores canções de HIStory, um dos maiores golaços de placa da carreira de Michael Jackson.

Com uma introdução perfeitamente arranjada com sons de passarinhos cantando, harpa e piano, logo nos primeiros minutos, a canção penetra em nossas almas, e tal sensação só é ainda mais realçada por meio do incrível clipe filmado em 4 diferentes países, incluindo o Brasil com a Floresta Amazônica, e que ajudou MJ a conseguir um incrível feito: o maior sucesso de sua carreira em todo o continente europeu, superando mega hits como “Billie Jean”, “Bad” e “Black Or White”.

A primeira derrapada do disco se dá em sua sexta faixa: D.S. Mesmo contando com uma excelente participação do guitar hero e gunner Slash, a crítica explicitamente direcionada ao promotor de justiça Tom Snedddon, aqui retratado como Don Sheldon, peca pela sua extensa duração, o peso sonoro que não soa genuíno, e a macetação dos versos finais.

Contando com a participação do grande mito da disco music e do (verdadeiro) funk, Nile Rodgers, “Money” traz um viés mais áspero e grooveado pro disco. A letra pega pesado nas mazelas que o amor cego por dinheiro pode causar na vida, e é um ótimo lado B da carreira de Jackson.

Na oitava canção de HIStory, uma velha cover conhecida dos fãs: Come Together. O eterno clássico dos Beatles que já havia aparecido no filme “Moonwalker” de 88, finalmente ganhava um merecido registro em disco. E queira os fãs mais xiitas dos fab four, ou não, a regravação do astro conseguiu trazer um novo frescor a canção com sua excelente performance vocal, a guitarra mais hard rock, e até mesmo a pulsante bateria eletrônica.

Capa do single de "You Are Not Alone".

Capa do single de “You Are Not Alone”.

“You Are Not Alone é uma canção singela, porém bela”. A declaração curta e certeira proferida pelo saudoso Renato Russo, capta bem toda a essência da primeira canção da história a estrear direto no topo da parada de sucessos do “Hot 100” da Billboard.

Para passar a sensação de solidão e esperança de que o amor pode nos apoiar nos momentos mais difíceis de nossas vidas, o clipe dirigido pelo renomado Wayne Isham, foi rodado em um teatro de Nova Iorque, e traz Michael cantando para uma plateia vazia e em trajes sumários com sua então esposa Lisa.

O tom confessional registrado no disco chega ao ápice em “Childhood”, canção que retrata a conturbada infância de Michael Jackson, e que foi lançada como lado B do single de “Scream”, sendo utilizada como música-tema de Free Willy 2.

Com versos tão sinceros e bonitos como: “Antes de me julgar, tente me amar”, e sendo considerara pelo próprio cantor como sua melhor e mais inspiradora canção, aqui vemos um dos momentos de maior brilho genuíno que somente os grandes mitos musicais conseguem realizar.

A metralhadora giratória contra a imprensa marrom é disparada com bastante vigor em “Tabloid Junkie”, que com uma sonoridade eletrônica, calcada num vocal mais agressivo e em arranjos agitados de teclado, soa como um ótimo lado B, remetendo aos tempos de glória em “Dangerous”.

Mais uma vez a crítica ao dinheiro volta ao disco, desta vez no excelente rap de “2 Bad”, que conta com a participação do ex-astro da NBA, e um dos maiores pivôs da história do basquete, Shaquille O’Neal.

Em sua faixa-título, o rei do pop faz um épico sonoro que mistura grandes momentos da história norte-americana com os da sua vida. O refrão poderoso aumenta a sensação de esperança que a letra pretende transmitir, mostrando como cada pequeno gesto feito em nossas vidas podem fazer parte de um grande feito histórico.

Totalmente fora de contexto do álbum, a densa e triste “Little Sussie” traz a história real de Susie, que nunca tivera um momento belo em sua vida e teve uma morte extremamente cruel! Apesar de ser uma faixa impactante, aqui ela perde importância por não estar em sintonia com as demais faixas, e talvez ganhasse mais notoriedade se fosse lançada como um single a parte.

O álbum fecha com mais um cover, desta vez com uma canção do gênio Charlie Chaplin: “Smile”. Com uma interpretação de felling extremamente rico, aqui, Michael Jackson reafirma para si e o ouvinte, que por mais que a vida possa ser cruel, é importante sorrir e seguir adiante!

Com mais de 20 milhões de cópias vendidas em seu primeiro ano no mercado (sendo 7 milhões só nos EUA), HIStory conseguiu o incrível feito de ser o disco duplo mais vendido da história, e rendeu a turnê mais lucrativa de toda a sua trajetória.

Apesar de dividir opinião de críticos, e fãs, é inegável que o fato de Michael Jackson ter compartilhado suas visões e sentimentos numa espécie de “diário pop”, conseguiu render no final das contas em um ótimo trabalho que deve e será sempre lembrado na sua incrível trajetória.

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