Dentro da jaula, junto dos animais

Clássico de Schwarzenegger de 87 traz crítica ferrenha ao poder de alienação da TV.

Em 2017, a economia norte americana está em colapso, os cidadãos tem seus direitos políticos suspensos e sua liberdade de expressão censurada, discos, livros e filmes foram todos queimados e não há uma escola aberta. A única forma de informação e entretenimento oferecido ao povo é a TV estatal ICS, que possui uma programação totalmente voltada para os interesses públicos cujos programas de maiores índices de audiência são os game shows, onde prisioneiros lutam pela sua sobrevivência, e é justamente daí que sai o programa de maior audiência do país: O Sobrevivente (Running Man).

Nesse cenário futurista apocalíptico, encontra-se o piloto de um helicóptero militar Ben Richards (Arnold Schwarzenegger), que ao fazer uma patrulha se recusa a atirar em manifestantes civis desarmados, que clamavam por comida. Os outros militares não hesitam em fazer o massacre e Richards vai parar na prisão como bode expiatório da chacina.

Após 18 meses na prisão, Ben e seus amigos Willian Laughlin (Yaphet Kotto) e Harold Weiss (Marvin J. McIntyre) conseguem executar seu plano de fuga, porém, a liberdade dura pouco tempo: Ben é denunciado por Amber Mendez (Maria Conchita Alonso) no aeroporto de Los Angeles, quando partiam para o Havaí.

O apresentador de Running Man, Damon Killian (Richard Dawson), vê uma oportunidade de ouro para alavancar a audiência do programa e faz de tudo para o governo autorizar a participação do prisioneiro mais célebre do país. Sem opção de escolha e pressionado, Ben, Willian, Harold e até Amber, terão de participar do programa e lutar pelo maior prêmio: suas vidas! E no meio desse caminho há os temíveis “caçadores”, que usam de poderosos artifícios para eliminar os concorrentes.

Ben Richards (Arnold Schwarzenegger) começando sua participação no game show que dá título ao filme.

São evidentes as referências ao clássico literário de George Orwell (1984), nas figuras das mensagens dos altos falantes da cidade avisando a população sobre o horário do toque de recolher, sobre o policiamento de ideias e bons costumes e, principalmente, na figura do Ministério da Justiça, órgão que controla a TV estatal. A crítica aqui também vale para os fãs fervorosos e cegos, como é bem retratado na cena em que um cidadão leva um “chega pra lá” de um dos caçadores e fica maravilhado por ter levado aquela porrada de seu ídolo; e não sobre farpas, é claro, ao capitalismo e a publicidade, bem representadas na parte do comercial da “Codre Colla”.

Com uma direção certeira, o filme é pura adrenalina e nervos à flor da pele do início ao fim, e só a presença de Schwarzenegger na tela já é um show a parte. A trilha envolvente e a fotografia também contribuem na qualidade da obra.

Vale ressaltar também as atuações da então bela Maria Conchita, Richard Dawson, Yaphet Kotto, Marvin J. McIntyre e dos caçadores, que convencem e ajudam a não deixar o ritmo cair. Porém, sem dúvidas, o grande trunfo aqui é o roteiro de Steven E. de Souza, baseado no livro do gênio Stephen King.

Mesmo sendo de 87, a mensagem crítica ao poder de alienação dos grandes meios de comunicação e dos formadores de opinião que tentam moldar a sociedade para um modo de vida, contida neste clássico de ação ininterrupta de Schwarzenegger, ainda permanece atual, pois por mais que tenhamos uma certa “liberdade de expressão” na internet, aos poucos temos nossa vida e privacidade sendo invadidas, grandes empresas sabem cada vez mais dos nossos hábitos de consumo, nosso perfil, onde vamos e não vamos.

Recentemente, casos de censura, como o acesso negado ao CQC no Senado, a censura da faixa de protesto à arbitragem brasileira feita pela torcida do Náutico e com a torcida do Atlético Mineiro, assustam, pois é justamente freando aos poucos a liberdade de expressão, com o povo iludido com uma falsa felicidade pregada por redes sociais, uma TV aberta na base do pão e circo, e com senso crítico bem baixo, que pode vir uma ditadura autoritária.

O Sobrevivente deve ser visto, revisto e perpetuado para todo o sempre, para que as pessoas possam enxergar os malefícios de ligar o “foda-se” para questões sérias e de se estar na zona de conforto; e fãs do Terminator, caso ainda não tenham visto este clássico, vocês estão convocados a ver!

FICHA TÉCNICA

Diretor: Paul Michael Glaser

Elenco: Arnold Schwarzenegger, Maria Conchita Alonso, Yaphet Kotto.

Produção: Keith Barish, Rob Cohen, George Linder, Tim Zinnemann.

Roteiro: Stephen King, Steven E. de Souza.

Fotografia: Thomas Del Ruth

Trilha Sonora: Harold Faltermeyer

Duração: 101 min.

Ano: 1987

País: EUA

Gênero: Ação

Cor: Colorido

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