Metal For All

No dia 12 de agosto de 1991, com o lançamento do clássico Black Album do Metallica, o heavy metal entrava de vez no mainstream.

Há exatos 20 anos atrás, o heavy metal deixava de ser um subgênero do rock restrito à algumas rádios segmentadas, pub´s, quartos de adolescentes headbangers e um ou outro festival; e tomou de assalto o mainstream, com músicas estouradas nas FM´s, clipes passando sem parar na MTV, e as vendagens de discos indo a níveis estratosféricos, o álbum que conseguiu esse grande feito?: Metallica, ou como é mundialmente conhecido: o BLACK ALBUM.

Meu primeiro contato com essa grandiosa obra, foi tardio, mas também não tinha como acontecer ali naquele ano de 91, pois nasci em 90, portanto ainda estava na fase de fraldas e mamadeiras e só iria apreciar a obra do Metallica e em especial o Black Album, anos mais tarde, o que realmente aconteceu quinze anos depois. E tudo aconteceu de uma forma inusitada, pois a primeira música que escutei da banda e do disco, Sad But True, não foi numa rádio, ou vendo seu clipe, foi num ensaio de apresentação para festa junina que minha sala do 2 ano estava preparando, sim você não leu errado, vou explicar melhor a situação: Minha sala estava preparando um número para a festa junina da minha escola, e o tema e a intenção da apresentação era conter uma seleção musical eclética e fazer uma coreografia em cima dela, e a música escolhida para representar o rock foi a arrebatadora Sad But True; quando a ouvi tive um orgasmo com aquela guitarra pesada, marcante e consistente e principalmente com a bateria de Lars Ulrich que ditava o ritmo que parava de repente e… voltava de maneira incrível e quando James Hetfield ia entrar com seu vocal, na gravação que minha sala dá se um barulho de explosão e começa a tocar uma música de sertanejo; nem preciso dizer que não participei dessa escrotice e que aumentei meu ódio ao termo “eclético” e as pessoas que ao serem indagadas sobre seu gosto musical usam o mesmo para dizerem que gostam de ouvir “tudo”.

Formação que gravou o clássico: James Hetfield vocal e guitarra,Jason Newsted no baixo,Lars Ulrich na bateria e Kirk Hammett na guitarra solo.

Passado alguns dias, quis os deuses do rock que eu conferisse mais um petardo: ENTER SANDMAN. Desta vez foi na MTV, no saudoso programa Pé Da Letra (que trazia a tradução das letras), onde foi exibido o clipaço da canção, a qual mais uma vez fiquei alucianado. Mas o Metallica me conquistou como fã mesmo e eu fiquei de queixo caido para o disco foi em julho, quando ao passar as férias na casa de meu primo e guru musical Jean Jones, ele me apresenta o seu vinil do clássico. Ai não teve jeito, fiquei escutando o bolachão não só uma tarde inteira, mas sim durante a semana! E foi indescritível a sensação que tive ao escutar na vitrola clássicos inesquecíveis como a eternamente bela The Unforgiven, que tive uma paixão elevada a décima potência quando vi seu fabuloso clipe , Wherever I May Roam, meu Deus o que era aquela introdução de cítara do James, Of Wolf And Man, aonde a guitarra poderosa de Kirk parece dialogar com o vocal de James, e aquela que pra mim é a CANÇÃO do Metallica, que marcou profundamente minha vida e sempre eleva meu estado de existência e espírito a uma outra dimensão: Nothing Else Matters! As demais canções também gosto bastante, destaco inclusive as canções The God That Failed que contêm uma letra de cunho bastante pessoal de Hetfield e a contribuição do então baixista do grupo Jason Newsted com My friend Of Misery.  Mas foram as 6 anteriores que citei anteriormente, que me conquistaram de uma forma avassaladora.

O produtor do disco Bob Rock.

E numa data tão especial como a de hoje, não poderia deixa-la passar em branco, e como uma forma de homenagear este monstro sagrado que redefiniu os rumos do metal e da minha vida, e para comentar melhor cada faixa, vou postar aqui uma recente entrevista que Bob Rock, o produtor do disco, concedeu à Music Radar, onde contou detalhes da gravação, o clima dela, a sua relação com a banda na época, as (injustas) críticas que os fãs mais ferrenhos fizeram de que a banda estava se vendendo e que ele era o culpado de tudo isso.

O clima das gravações:

“Não foi um álbum fácil e divertido de se fazer”. “Claro que demos algumas risadas, mas as coisas foram difíceis. Eu disse aos caras que quando completássemos esse álbum eu nunca trabalharia com eles de novo. Eles sentiram o mesmo a meu respeito.”

Sobre sua aproximação com composições do mainstream:

“Eles tinham quebrado uma barreira, mas ainda não estavam nas rádios mainstream. Quando vieram até mim eles estavam prontos para fazer esse salto para algo grande. Um bocado de pessoas pensa que eu mudei a banda. Não mudei. Suas cabeças já estavam mudadas quando os conheci.”

Sobre o estilo de tocar bateria de Lars Ulrich:

“Eu notei que o Lars tocava para a guitarra de James muito parecido com o jeito que Keith Moon tocava para Pete Townshend (The Who). Isso é legal para algumas bandas, mas não para todas. O ‘Back In Black’ do AC/DC foi um grande ponto de referência para um álbum de rock que ‘grooveava’. Eu disse isso em ordem para captar aquele sentimento, ele tinha que ser o ponto focal musicalmente. Então, em certas músicas, a banda tocou para Lars. Eles o acompanharam. Fez uma diferença real.”

Sobre James Hetfield:

“Ele queria ir mais a fundo com sua composição. Ele queria que suas músicas realmente importassem. Nós falamos a respeito de grandes compositores, como (Bob) Dylan e (John) Lennon e Bob Marley, e eu acho que ele viu isso que ele poderia escrever para si mesmo, mas ainda tocar outras pessoas. Foi uma luta para ele, mas ele teve um tremendo avanço como compositor.”

Sobre gravar como uma banda ao vivo:

“Eu insisti na banda tocar ao vivo no estúdio. Eles nunca tinham feito isso antes – todos os seus álbuns anteriores foram gravados em sessões separadas. Eu disse a eles, ‘vocês são uma grande banda ao vivo. Esta vibe é crucial para o álbum.’”

Análise de faixa por faixa:

ENTER SANDMAN

 “Eu insisti que a banda tocasse ao vivo no estúdio. Eles nunca tinham feito isso antes – todos os álbuns anteriores foram gravados em sessões. Eu disse à eles “Vocês são uma grande banda ao vivo. Essa vibe é crucial para o álbum. “

“ Para Sandman, eu pedi à Jason tocar mais como um baixista do que um guitarrista. Isso aliada a nova perspectiva de bateria de Lars daria um groove matador à musica.”

“De começo, baseado no riff e na música, a banda e o empresário acharam que poderia ser o primeiro single. Aí ouviram as letras de James, que falavam sobre morte. Isso não foi bom. ”

“ Eu sentei com James e conversei com ele sobre as palavras. Eu disse à ele “O que você tem é incrível, mas pode melhorar. Precisa ser tão literal? Não que eu esteja pensando no single, eu só queria que ele tornasse a música incrível. Foi um processo, ele aprendendo a dizer o que queria mas de uma forma poética e aberta. Ele reescreveu algumas partes e aí estava… o primeiro single.”

SAD BUT TRUE

 “Eles me passaram a demo, e eu os disse que era a Kashmir dos anos 90. O riff era incrível. Para o meu conhecimento, eles nunca tiveram algo tão pesado, tão punchy e tão poderoso. Ritmicamente, eu diria que tinha o potencial para ser absolutamente destruidor.”

“Nós estávamos na pré-produção, o que era de certa forma desconfortável porque nunca ninguém tinha feito eles irem pelas próprias músicas de uma forma deliberada, e após seis músicas Sad But True veio. De repente, cheguei à conclusão que todas as músicas, inclusive essa, eram em E.”

“Eu chamei a atenção da banda para isto, e disse ‘Bom, não é E a menor nota?’ Então eu disse à eles que no álbum Dr Feelgood do Motley Crue, que eu produzi e o Metallica amou, a banda afinou em D. Metallica então afinou em D, foi aí que o riff se tornou imenso. Era uma força que não dava pra parar, não importa o que seja.”

HOLIER THAN THOU

 “A banda ainda tira sarro de mim por causa desta música porque era a primeira que pulou para mim como um potencial single. Devo dizer que nessa hora não tínhamos letras, então inicialmente, algo sobre essa música falou à mim. “Rockeava” de uma maneira agressiva e dizendo “Metallica” para mim.”

“Quando estávamos mais a fundo na gravação, a maré foi contra a música, porque outras floreceram e se tornaram maiores coisas como Enter Sandman. Então lá estava Holier Than Thou… música incrível, não um single.”

“Eu ainda gosto da energia e do tempo. Tem uma aura tão letal. Toda vez que vejo a banda, eles sempre dizem a mesma coisa: “Holier than Thou, huh?”Eles nunca vão abandonar aquilo. O que posso dizer?”

THE UNFORGIVEN

 “James estava apaixonado pela música ‘Wicked Game’ de Chris Isaak. Ele gostava como o vocal soava grande e caloroso. Até esse ponto, James queria cantar. Ele tinha gritado bastante, mas agora ele queria ir além.”

“No passado, sempre teve problemas com seus vocais. Ele não cantava harmonias per se; ele apenas cantava a mesma coisa na outra faixa. Mas o processo de dublagem não te dá caráter; de fato, muitas vezes tira o caráter, porque você espera que o segundo vocal dê a profundidade que os primeiros vocais deveriam ter.”

“Eu disse à James que deveríamos gravar seu vocal, mas ao invés de ouvir a si mesmo nos fones de ouvido eu queria que ele se ouvisse nas caixas. A diferença foi incrível. Ele cantou a música, e porque ele se escutou de uma forma diferente, havia uma nova dimensão para sua voz. Era grande, profundo e caloroso e ‘pulava’ encima de você.”

WHEREVER I MAY ROAM

” Realisticamente, os caras do Metallica podem criar riffs o dia inteiro, e metade serão incríveis. Quando você convive com eles, você ouve a diferença entre um riff legal e um riff tipo Smoke on the Water. Metallica teve vários desse tipo no álbum, e eu diria que este é o que mais se aproxima a ultima categoria. “

“ Então começamos com um riff legal, e então se tornou meu trabalho levar o tema ao longo da música. Deveria haver movimento para as partes. Como nas outras faixas, o grande momento em que Wherever I May Roam veio à tona foi quando as letras estavam finalizadas. Até esse ponto, tudo fazia sentido e se juntava bem. ”

“ Bem que eu poderia ter levado o crédito pela cítara, mas era idéia da banda. Eu acho que funcionou magnificamente – um grande elemento para uma grande música.”

DONT TREAD ON ME

 “Para mim, esta era uma música estranha. O ritmo esquisito, estilo marchante, o que era o ponto central, eu acho… Havia um discurso raivoso e político em Dont Tread on Me que eu tive dificuldades em entender de começo.”

“Este representou meu aprendizado entre as diferenças entre Bon Jovi e Loverboy e o significado real de composição de letras. Metallica foi a um nível de profundidade e paixão que eu nunca tinha encontrado antes.”

“Isso que você ganha quando os vê face-a-face: mesmo quando você não sabe o que eles estão dizendo, você pode perceber o que eles querem dizer, e assim, a música faz uma conexão.”

THROUGH THE NEVER

 “É divertido falar sobre algumas dessas músicas e lembrando a curva de aprendizado que eu tive sobre o que era o Metallica. Quando estava ajudando-os a ser a melhor banda que eles pudessem, eu estava ganhando muito insight sobre o que os tornava tão incríveis. cada dia trouxe novas descobertas em ambos lados, deles e meu.”

“Me levou um tempo para perceber o que era legal em Through the Never, mas quando eu percebi, era muito bom. E o que é bom é que há uma pequena aura punk rock nela. Um novo traço, uma nova cor – era incrível”

“Antes, eu achava que suas influências eram totalmente metal, mas conversando com eles e entendendo que eles tinham lados diferentes realmente abriu meus olhos. De uma vez que vi de onde eles vinham, a música fazia total sentido.”

NOTHING ELSE MATTERS

 “Eu não posso dizer o significado porque James o escreveu, mas para mim, essa música é basicamente ele tentando escrever uma música de amor sem a palavra ‘amor'”.

“Era interessante… o homem que eu conhecia tempos atrás… ele certamente sentia amor, mas nunca poderia dizer a palavra, especialmente numa música do Metallica. Isso era o fato gênio dele, sua habilidade em dizer de sua forma o que quer dizer, mesmo com tudo que ele estava passando, todos os demônios, raiva e tudo mais que ele possuía. Acho que é uma das melhores músicas do Metallica de todas.”

“Musicalmente, queríamos algo grande, mas não bombástico. Queríamos tamanho e altura, mas não queríamos aquilo que toda banda de metal dos anos 80 estavam fazendo com as baladas mela-cueca. Nós realmente trabalhamos no arranjo para fazê-lo gigante e dramático… mas real.”

OF WOLF AND MAN

 “Serei honesto: de primeira, achei que seria bobo escrever sobre um lobo. Eu estava meio “Ah… incríve! uma música sobre um lobo. Onde você quer chegar? Poderia escrever sobre pirâmides ou algo assim. Quando o metal vai pra esses caminhos, eu perco o sentido. “

“ Então, quanto mais me aproximava das letras de James, vi que a música não era boba, que havia um sentimento terráqueo. Conversamos sobre fazer a música ir num tipo de transformação, meio que refletido as letras. Não sei se conseguimos de verdade, mas conseguimos pela maior parte.”

THE GOD THAT FAILED

 “Essa era a música que realmente quebrou o gelo entre mim e James. Tínhamos nossas tensões, mas conversávamos muito, e quanto mais o conhecia, mais percebia o quanto havia de importante para ele.”

“The God that Failed é profundo. Não é um ataque barato na religião, é ele atacando o assunto de uma maneira complexa. Emocionalmente, é tão real quanto Nothing Else Matters.”

 “Trabalhando com Kirk nessa música foi interessante – e isso foi ao longo do álbum também: me foi dito que ele viria nas últimas semanas para gravar seus solos. Então eu disse “Bom, é assim como iremos fazer as coisas… ele vai tocar ao vivo, como todos os outros”.

“Primeiramente, Kirk estava bem desconfortável com essa perspectiva, mas depois começou a tocar solos que guiariam a música. Em muitos casos, inclusive este, suas primeiras idéias seriam as que nós voltaríamos e usaríamos nos overdubs. Ele aprendeu a ser espontâneo”.

MY FRIEND OF MISERY

 “Essa música é tipicamente Jason. Começava com uma intro sua, então grande parte do trabalho foi gasto desenvolvendo uma grande intro à uma musica que decolaria e realmente iria à lugares. E isso aconteceu – se constrói e constrói magnificamente.”

“Essa música é basticamente um sentimento, e tem um feeling bem cinemático. Metallica sabe como tocar para seus pontos fortes, dando poder cru, mas nesta faixa fomos atrás de uma atmosfera.”

THE STRUGGLE WITHIN

 “Aqui também me senti imreso em algo que eu não entendia muito de começo. Escuridão e todas as emoções ligadas à ela… o assunto pode ser bem elusivo.”

“Quanto mais e mais entrava no mundo do Metallica, mais eu comecei a entender como lidar com assuntos fortes, assustadores e não-tão-bonitos que eles queriam explorar.”

“A banda que consegui após este álbum, mas eu acho que isso era esperado. Eles cresceram. Eles se tornaram homens, pais e maridos. Estar no Metallica ainda era importante e vital para eles, mas quando fizemos o Black Album, era a única coisa para eles. Eu consegui eles na hora certa.”

 

 

 

Um comentário em “Metal For All

  1. Sou de uma época onde fãs de Iron Maiden entrava em guerra contra fãs do Metallica. Gostava da1ª mas era o Metallica a banda a qual eu e amigos carregávamos a bandeira. BLACK ÁLBUM era nossa excalibur, um álbum perfeito, como poucos, aquele tipo que você ouve do início ao fim. O qual faz seu coração derreter, endurecer, faz você pensar em ir para uma Guerra animado ou faz você desistir da mesma. Uma obra lendária que vai ficar para sempre!

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